
Nos dias 24 e 27 de abril, foram realizadas novas audiências de instrução e julgamento dos processos criminais relacionados ao rompimento da barragem da Vale, no Córrego do Feijão, em Brumadinho.
As sessões começaram às 9h15 e se estenderam pela tarde. Os trabalhos foram conduzidos pela juíza federal Raquel Vasconcelos Alves de Lima e deram continuidade à oitiva de testemunhas de defesa comuns a diversos réus.
Testemunho de Armando Mangolim Filho
Na sexta-feira (24/4/2026), foi ouvido Armando Mangolim Filho. Ele começou a trabalhar na Vale em 1995 e, após se aposentar, passou a atuar como consultor interno da empresa, na condição de engenheiro geotécnico, dedicado à elaboração de notas técnicas sobre segurança de barragens.
Após assumir o compromisso legal de dizer a verdade, a testemunha relatou que esteve na barragem B1 e, ao ver a estrutura, sentiu a falta de dados sobre especificações de materiais e serviços relacionados à estrutura.
O engenheiro fez várias considerações sobre o uso dos Drenos Horizontais Profundos (DHPs) e questões relacionadas à segurança em barragens. Segundo ele, ao identificar na barragem B1 que a 15ª DHP instalada contava com fraturamento hidráulico decorrente da instalação, recomendou a paralisação imediata da prática por riscos à segurança da barragem. Na avaliação da testemunha, a 15ª DHP seria um potencial gatilho para a ruptura da barragem e sua instalação já representava risco. Ele afirmou ter formalizado essa análise em nota técnica.
A testemunha declarou ainda que, ao longo de sua experiência, nunca viu a recomendação do uso de DHP em barragens de rejeitos construídas pelo método de alteamento a montante, devido ao risco.
Por fim, respondeu a perguntas sobre reuniões e conclusões dos Painéis Independentes de Especialistas para Segurança e Gestão de Riscos de Estruturas Geotécnicas (PIESEMs), a condição dos rejeitos contidos na barragem B1, a instalação de mecanismos de segurança nas unidades minerárias da Vale em 2018, o descomissionamento de barragens, além da superação, em sua avaliação, do modelo de alteamento a montante para barragens (como é o caso da B1) por modelos de compactação de rejeitos minerários em aterro.
Testemunho de Fernando Schnaid
Já na última segunda-feira (27/4/2026), foi ouvido o engenheiro e professor universitário Fernando Schnaid.
A testemunha é graduada em engenharia civil pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com mestrado pela PUC-Rio, doutorado em ciência de engenharia pela Universidade de Oxford e pós-doutorado pela University of Western Australia. Atualmente, é professor titular da UFRGS.
Fernando Schnaid passou a atuar como consultor da Vale em 2018, na área de pesquisa e desenvolvimento. Segundo ele, o objetivo era a constituição de um laboratório para desenvolver melhores práticas no segmento de atividade minerária.
Após prestar o compromisso legal de dizer a verdade, afirmou que sua atuação na empresa se limitou, além de constituir um laboratório, à apresentação de novas metodologias para cálculos do fator de segurança de barragens. Destacou que nunca discutiu e nem avaliou fatores de segurança de barragem específica, pois não teve acesso a dados técnicos sobre condições de qualquer estrutura.
Durante a oitiva, ao tratar do descomissionamento (encerramento definitivo de uso) de barragens e fatores de segurança, relatou ter tomado conhecimento dos problemas relacionados à 15ª DHP instalada na barragem B1. Segundo ele, a Vale buscava elevar o fator de segurança da estrutura para futura descaracterização, informação que lhe foi repassada durante reunião do PIESEM.
A testemunha afirmou que, até a decisão de descomissionamento deste tipo de barragem, não havia estudo sobre esse processo, por se tratar de um fato inédito, sem estudos e registros na literatura especializada. Segundo explicou, esse procedimento realizado pela Vale ou outras mineradoras apresentariam risco pela possibilidade de ativar gatilhos de liquefação.
A próxima audiência está marcada para segunda-feira (4/5/2026), às 9h15, quando será ouvida, por videoconferência, a testemunha de diversos réus, o engenheiro Paulo César Abrão.
Sobre as audiências
Ao todo, estão previstas 76 audiências, na sede do Tribunal Regional Federal da 6ª Região (TRF6), com previsão de término em maio de 2027. Serão ouvidas testemunhas de acusação e defesa, além da realização dos interrogatórios dos réus.
Todas as informações estão disponíveis no Portal do TRF6 no botão “Audiências Criminais de Brumadinho”.
