Acolhimento, Justiça e dignidade: a história de Adair

Adair José de Souza

Nascido em Betim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, Adair José de Souza enfrentou dificuldades desde a infância. Viveu em situação de rua, perdeu a aposentadoria por invalidez e, por um período, acreditou que não conseguiria mudar o rumo da própria vida.

A entrevista começou na cozinha da casa onde hoje mora. Antes da primeira pergunta, fez questão de preparar um café. O gesto simples de receber quem chegava contrastava com a história que viria a contar. No início, falava pouco e demonstrava certa timidez. À medida que a conversa avançava, ganhou confiança e passou a compartilhar lembranças marcadas por perdas, desafios e recomeços. Também revelava outras características: a organização, a serenidade e a determinação de reconstruir a própria vida.

Uma infância marcada por desafios

A infância de Adair foi marcada por desafios. Ele e os irmãos cresceram em um ambiente de violência e conviveram com o alcoolismo do pai. Após a separação dos pais, mudou-se, aos 12 anos, para a casa da mãe, mas não foi aceito pelo padrasto. Foi nesse período que viveu, pela primeira vez, em situação de rua.

Mesmo diante das adversidades, buscou uma forma de sobreviver. Pouco tempo depois, conseguiu um emprego em uma delegacia.

“Arrumei serviço na delegacia. Levava café, almoço e jantar para os presos e ganhava um salário. Com esse dinheiro, consegui alugar um barracão para morar, com apenas 12 anos”, relembra.

A partir daí, passou a alternar os locais onde trabalhava. Quando não conseguia emprego em Belo Horizonte, passava uma temporada em Matozinhos.

Mais tarde, começou a trabalhar com reforma de fornos industriais de fábricas de cimento. Segundo ele, as contratações ocorriam apenas durante as paradas programadas para manutenção. Concluído o serviço, os funcionários eram dispensados e voltavam a ser chamados quando surgia uma nova demanda. Em uma dessas obras, foi designado para realizar a manutenção de uma torre, atividade diferente da que costumava exercer. Durante o serviço, sofreu um mal-estar e precisou ser afastado. Algum tempo depois, foi aposentado por invalidez.

Dois anos vivendo nas ruas

Em 2019, após um pente-fino do governo, teve o benefício suspenso. Sem a aposentadoria, ficou sem renda e perdeu as condições de pagar o aluguel. Sem ter para onde ir, passou a se revezar entre a casa de conhecidos, de amigos e as ruas.

Foram dois anos vivendo em situação de rua, experiência que descreve como um dos períodos mais difíceis da vida. Sem nunca ter feito uso de drogas, precisou conviver diariamente com pessoas dependentes químicas em uma rotina marcada pelo medo e pela insegurança.

“Esse negócio de rua eu não arriscava muito não porque nas madrugadas, o bicho pega. Quando eles batem na neura de usar aqueles negócios, ninguém para eles não. Eu ficava rodando. Um dia eu sentei num lugar perto da rodoviária. O rapaz chegou, tinha ido buscar droga, e falou sai daqui e foi me pegando pela camisa. Uma outra pessoa que estava sentada falou: ele não está mexendo com você, está quietinho na dele. Os dois saíram na briga, do nada. Só por causa de um lugar que ele queria ficar onde eu estava sentado. É muita luta”, relembra.

O caminho para o recomeço

A reviravolta começou quando Adair chegou à Central de Acolhimento para Pessoas em Situação de Vulnerabilidade Social do Tribunal Regional Federal da 6ª Região (TRF6). Foi ali que encontrou acolhimento, orientação jurídica e uma nova oportunidade para recomeçar.

Após ser atendido pela equipe e apresentar a documentação necessária, foi informado de que havia a possibilidade de reaver a aposentadoria por invalidez. Mesmo com a orientação recebida, não acreditava que o processo teria um desfecho favorável.

“Eu achei que era só uma ajuda mesmo que eles estavam dando lá para as pessoas. Eu não tinha muita esperança, não”, relembra.

O coordenador do Centro de Justiça Restaurativa (Cejure) do TRF6, juiz federal José Maurício Lourenço, acompanhou o caso. Segundo ele, Adair chegou bem orientado, explicou com clareza o que havia acontecido e apresentou toda a documentação necessária, o que permitiu agilizar a tramitação do processo.

Juiz federal José Maurício Lourenço e Adair José de Souza

Cinco meses depois, veio a notícia que mudaria sua história. Adair voltou a receber a aposentadoria por invalidez e também teve direito aos valores retroativos referentes ao período em que ficou sem o benefício.

“Ele foi chamado para fazer a perícia e o perito judicial reconheceu a incapacidade retroativa, ou seja, quando ele teve cessado o benefício não era para ter sido cessado porque ele continuava incapaz. Foi para a sentença e o juiz mandou pagar os atrasados. O INSS não recorreu e rapidamente saiu o valor dos atrasados”, explicou o magistrado.

Mais do que recuperar a renda, Adair recuperou a possibilidade de reconstruir a própria vida.

José Maurício Lourenço conta que, desde o primeiro atendimento, chamaram atenção a organização, a facilidade de diálogo e o comprometimento de Adair com o tratamento psiquiátrico e o uso regular da medicação. Com a expectativa de que voltasse a receber o benefício e os valores retroativos, a equipe da Central passou a orientá-lo sobre os próximos passos, especialmente em relação à compra da casa própria.

“Ele ia começar a receber o benefício e começamos a fazer um trabalho com ele porque sabíamos que receberia os atrasados. Sempre o orientávamos a ter muita calma porque havia um valor que permitiria encontrar um imóvel bom”, contou o juiz.

Uma nova vida

Assim que recebeu os valores retroativos, Adair realizou o sonho antigo: comprar a casa própria. Hoje, a casa que mobiliou com cuidado representa muito mais do que um endereço. É onde voltou a encontrar estabilidade, segurança e tranquilidade para recomeçar.

“Eu comprei minha casa, melhor coisa que tem. Aluguel não presta, não. Com as parcelas do décimo terceiro, eu mobiliei a casa.”

Ao falar da vida que leva hoje, Adair faz uma breve pausa. O sorriso tímido que marcou o início da entrevista reaparece ao lembrar de tudo o que superou para chegar até ali.

“É uma mudança muito grande, é muita diferença. Não tem nem como comparar.”

Esperança no futuro

Depois de tantos anos lutando para sobreviver, Adair agora consegue fazer planos. Embora diga que ainda não saiba exatamente o que espera do futuro, há um desejo que quis compartilhar: ser pai.

“Eu amo criança, quer me ver ficar feliz, pode me colocar perto de umas 20 crianças e sair todo mundo. Mas, só se for da vontade de Deus mesmo”, disse.

Adair José de Souza

Antes de encerrar a conversa, perguntamos qual mensagem gostaria de deixar para quem vive hoje a mesma realidade que ele enfrentou. A resposta veio de forma simples, mas resume a trajetória de quem encontrou forças para recomeçar.

“Esperança é a última que morre. Basta a pessoa acreditar, ter força de vontade e correr atrás do que ela quer porque o sonho nunca é tarde para a pessoa conquistar. Basta esperança e força de vontade.”

Acolhimento que transforma

Em funcionamento desde abril de 2025, a Central de Acolhimento para Pessoas em Situação de Vulnerabilidade Social do TRF6 já conta com cerca de 150 ações em tramitação.

A Central oferece atendimento jurídico e social gratuito, humanizado e acessível a pessoas em situação de rua e a outros públicos em condição de vulnerabilidade social. O serviço busca garantir acolhimento, orientação e encaminhamento, além de promover o acesso a direitos fundamentais, contribuindo para a inclusão social e o fortalecimento da cidadania.

O juiz federal José Maurício Lourenço destaca que o principal diferencial da Central está na forma como as pessoas são recebidas. Segundo ele, o objetivo é oferecer um espaço de escuta qualificada, acolhimento e respeito, independentemente da demanda apresentada. Quando a solicitação não é de competência da Justiça Federal, a equipe orienta as pessoas e as encaminha para a rede de instituições parceiras, entre elas a Prefeitura de Belo Horizonte e outros órgãos do sistema de Justiça.

“O que está fazendo diferença na Central é o acolhimento porque as pessoas estão voltando mesmo sem necessariamente conseguir resolver o que elas queriam resolver. Às vezes, a nossa competência é restrita, não temos muito o que resolver na vida da pessoa, mas ela começa a sentir que ali ela tem um espaço para tomar uma água, fazer um lanche e para alguém ouvi-la”, explicou o magistrado.

Para o juiz, o trabalho da Central vai além da orientação jurídica. A equipe procura mostrar às pessoas em situação de vulnerabilidade que, mesmo quando a saída das ruas não é imediata, é possível resgatar a dignidade por meio do acesso a serviços básicos e da garantia de direitos. Cada atendimento, afirma, representa um passo importante na reconstrução da cidadania e reforça o papel social do Poder Judiciário.

“Então é exatamente isso, a certeza de que alguma coisa está sendo feita. E o que mais me engrandece é a Justiça fazendo isso e o Poder Judiciário se voltando para essa realidade porque o Poder Judiciário sempre foi visto de forma muito elitizada. A função da justiça é ajudar no resgate da cidadania e da autonomia das pessoas”, disse.

José Maurício Lourenço ressalta que o trabalho desenvolvido pela Central é desafiador e que, muitas vezes, o principal resultado não é retirar uma pessoa da situação de rua, mas oferecer acolhimento, escuta e um ponto de apoio para quem vive em extrema vulnerabilidade.

“É muito difícil trabalhar com essa população porque ela é muito vulnerabilizada e enfrenta muitos desafios. Quando conseguimos ajudá-la a encontrar um caminho diferente é ótimo, mas nem sempre isso é possível. Porém, só de saber que ela tem um lugar, um apoio para quando precisar, isso já é importante. A Justiça é para quem precisa. E quem mais precisa é quem está em situação de maior vulnerabilidade. O direito é para o pobre, para o órfão, para a viúva, para a pessoa em situação de rua que precisa desse amparo para seguir a vida”, finalizou.

Da esq. para a dir.: recepcionista da Central de Acolhimento, Lidiane Junia de Oliveira Santos; Adair José de Souza; juiz federal José Maurício Lourenço

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