
O Tribunal Regional Federal da 6ª Região (TRF6) promoveu, no dia 17 de junho, o segundo evento do projeto “Conhecendo os Povos Tradicionais de Minas Gerais”, com a palestra “Cultura, Direitos e Realidade dos Quilombolas”.
A iniciativa integra as ações do Comitê JUS-POVOS, que tem como objetivo fortalecer a promoção dos direitos e a inclusão de povos e comunidades tradicionais no âmbito do sistema de justiça. Em março, o encontro apresentou a realidade dos povos ciganos.
Durante a palestra, o professor, antropólogo e membro do Quilombo Mato do Tição, Joelton Carneiro de Lima, compartilhou a trajetória de sua família e de seus ancestrais. Ele relatou que sua mãe enfrentou o preconceito de uma época em que o acesso das mulheres à educação era limitado e, por isso, foi expulsa do quilombo. Segundo Joelton, essa experiência permitiu que ela conhecesse novas realidades e adquirisse conhecimentos que, posteriormente, contribuíram para o fortalecimento da própria comunidade.

Ao relacionar essa história à simbologia dos Ibejis, orixás gêmeos presentes nas culturas de terreiro e quilombolas, o palestrante destacou valores como união, equilíbrio, renovação e solidariedade. Para ele, os Ibejis representam a capacidade de compartilhar saberes e oportunidades, levando recursos e conhecimentos de onde há abundância para onde há necessidade, fortalecendo os laços comunitários e abrindo novos caminhos para as futuras gerações.
Histórias que fortalecem a comunidade
Ao falar sobre a importância de iniciativas como essa, Joelton destacou que acompanha o JUS-POVOS desde sua criação e afirmou ser gratificante ver os resultados alcançados pelo comitê. Ele também ressaltou a satisfação de ocupar um espaço tão significativo quanto o Tribunal para compartilhar a história de sua comunidade, seus desafios e conquistas.
“Tive a felicidade de participar do início do JUS-POVOS aqui. Já vi entrar nesta casa indígenas, ciganos e, agora, tenho a felicidade de acompanhar um mestre da minha comunidade, que traz saberes ancestrais. Esse processo de abertura promovido pela Justiça Federal aproxima não apenas o povo e suas raízes desta casa, que também é a casa do povo. Além disso, fortalece os laços quando a presidência idealiza uma iniciativa como essa e traz algo de fora para dentro, mostrando que esse espaço também lhes pertence. Isso é potente, promissor, fecundo e lindo”, explicou.
Desafios e conquistas do Quilombo Mato do Tição
Na sequência, o ativista e líder da Comunidade Quilombo Mato do Tição, Lindomar João dos Santos, falou sobre as dificuldades enfrentadas no passado para garantir a chegada de serviços básicos ao quilombo, como saúde e educação. Ele destacou que, apesar das conquistas alcançadas ao longo dos anos, a comunidade ainda luta pela preservação de seu território, cultura, tradições, costumes e religião, além do combate ao preconceito.

“Nós estamos sempre buscando melhorias para a comunidade. É uma alegria ter recebido o convite e poder falar de mim e do meu povo aqui. Contar um pouco do que eu vivo dentro da minha comunidade e do que foi passado de geração em geração. Minha bisavó fundou a comunidade quilombola. Nós preservamos muitos legados que são transmitidos entre as gerações. Estar aqui faz toda a diferença. Essa aproximação da Justiça Federal com o território nos dá uma salvaguarda, uma segurança para continuarmos lutando pelos objetivos que buscamos”, disse Lindomar.
De acordo com o líder, atualmente o quilombo conta com profissionais de diversas áreas, como advocacia, odontologia, arquitetura e fisioterapia, entre outras.
Tradições preservadas entre gerações
Lindomar também destacou uma das celebrações mais importantes da cultura quilombola, que se difundiu para diferentes localidades ao longo do tempo. A tradicional fogueira de São João é um ritual de recebimento de bênçãos e inclui a passagem pelo tapete de brasas, uma prática que simboliza fé, proteção e fortalecimento dos laços comunitários.
A importância da escuta e do diálogo
Presente na plateia, a diretora de Promoção e Reparação dos Direitos Humanos da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social e presidente do Conselho Deliberativo do Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos de Minas Gerais, Mariana Ribeiro, destacou a importância do evento.
“Este evento é muito importante porque promove a aproximação com os povos e comunidades tradicionais, seus saberes e suas vivências, que são fundamentais para a construção de políticas públicas e para a ampliação do acesso à justiça. É essencial compreender o contexto em que esses povos e comunidades vivem para que possamos desenvolver políticas voltadas às especificidades de cada realidade, respeitando suas histórias, culturas e modos de vida”, declarou.
Sobre o Comitê JUS-POVOS
O Comitê Interinstitucional JUS-POVOS tem como objetivo promover a articulação entre instituições e fortalecer políticas judiciárias voltadas à efetivação dos direitos de povos e comunidades tradicionais, como indígenas, quilombolas, geraizeiros, apanhadores de flores sempre-vivas, ciganos, entre outros, em Minas Gerais.
A iniciativa integra o Projeto JUS-POVOS, criado pelo TRF6 para mapear e estudar essas comunidades, estimular o diálogo com órgãos públicos e representantes dos povos tradicionais e propor ações que ampliem o acesso à Justiça e incentivem a sustentabilidade social, cultural e ambiental.
O comitê é composto por representantes do TRF6, Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região (TRT3), Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais (TREMG), Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCEMG), Ministério Público Federal (MPF), Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), Ministério Público do Trabalho (MPT), Defensoria Pública da União (DPU) e Defensoria Pública de Minas Gerais (DPMG).
Confira abaixo a galeria de fotos do evento.
